quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

CONTOS QUE NOSSAS AVÓS CONTAVAM...



                      A PULGA E O REI
Era uma vez um rei muito mau, injusto e que maltratava seus súditos,aumentava os impostos e tomava suas terras.
Mas, não podia ser deposto porque tinha um exército leal e aliados  poderosos.
-Sou rei por direito divino, dizia.Ninguém pode comigo!
Uma pulga que estava passando, assuntou na palavra do rei e disse:
-Esse pretensioso bem que merece uma lição!...
Naquela noite,quando o rei deitou-se,nos seus fofos colchões,sentiu  algo como se fosse uma picada de alfinete.
-Que é isto!? Assustou-se o rei.
E, levantando-se,furioso,sacudiu os lençóis e cobertores,chamou o criado que vasculhou tudo e nada encontrou,claro,porque a pulga escondeu-se nas barbas do monarca.
Mal  deitou-se,sentiu de novo a picada.
Desta vez a pulga apresentou-se e lhe disse que estava disposta a castigá-lo e sugar todo o seu sangue se ele não se tornasse um rei amável e humano.
Embasbacado, mas,fora de si de ódio ,o rei lhe disse:
-Como te atreves?És tão pequena e insignificante e queres atacar e destruir o homem mais poderoso da terra!?
A pulga nem ligou para o que ele disse e continuou a fazer o que sabia fazer muito bem: picar.

O rei não pregou olhos a noite inteira.
Mal o dia amanheceu, mandou fazer uma limpeza geral,tomou um banho pé e cabeça,enquanto dezenas de sábios munidos de possantes microscópios examinavam cuidadosamente o quarto e arredores.
Mas, não acharam a pulga que dormia placidamente sob o manto de cetim que o rei  portava.
Naquela noite ,exausto,o rei deitou-se muito cedo.
Daqui a pouco ,nova picada.
O rei deu um pulo da cama e avistou a pulga no edredom, passeando.
Correu para matá-la,mas,ela era muito ágil e ele muito velho e gordo,então,cansado,derrotado,perguntou:
-O que queres,infeliz?
-Que te tornes humano e cuides bem do teu povo.
O rei chamou seus soldados,seus generais,seu estado-maior, seus ministros,o cardeal e todos entraram pressurosos,atropelando uns aos outros,com o pensamento nas sinecuras e nas benesses que poderiam perder.
Fizeram a cama em pedaços,arrancaram o dossel,rasgaram o brocado das paredes,arrancaram mármores e tapetes,mas,não encontraram a pulga que estava bem escondida na cabeleira do rei.
Ministros e criados levaram o monarca para outro aposento, mas,a pulga saltou da cabeleira e começou a picá-lo toda a noite.
No dia seguinte o rei mandou colocar um edital em todas as igrejas e prédios públicos ordenando que o povo destruísse todas as pulgas sob pena de açoite.
Mas, a pulga,escondida no seu manto,ficou a salvo.
O corpo do rei estava cheio de manchas e de beliscões e pancadas, que ele dava em si mesmo para matar a pulga implacável.
As noites insones começaram a atacar sua saúde e o rei ficou magro e pálido,sem forças para lutar;percebeu que,se não obedecesse à pulga,morreria.
-Entrego-me  -disse o rei ,em tom cheio de lástima.
Farei o que queres.
-Faça o seu povo feliz.-
Como farei isto!?
_Age com humanidade e justiça.Respeita o direito dos mais fracos.Exila teus ministros e conselheiros,uma corja de aproveitadores e corruptos.
O rei fez melhor.Encheu seus bolsos de ouro,abandonou o país,não sem antes proclamar a República e o povo viveu feliz para sempre.
Dizem que Vitor Hugo costumava contar este conto a seus netinhos.Mas,como quem conta um conto aumenta um ponto,não sei se isto é verdade.
Só sei que a pulga-povo,se quisesse,destruiria todos os tiranos.Como na Tunísia.Como no Egito.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

PACI ÊNCIA,PRUDÊNCIA E PERSISTÊNCIA



Não sei  porque, mas,sempre que folheio meu jornal diário fico pensando que,no passado, era melhor.Não tínhamos que ler tanta notícia má e nem mesmo ler,pois como diz Caetano –“quem lê tanta notícia?!” já que , a maioria das pessoas ouvia mesmo era o rádio.
Creio que começar o dia ouvindo pagode e lendo jornais, que são meros bancos de sangue encadernados,não  despertará nossos melhores instintos,com certeza.
Viver na Salvador de hoje , uma megalópolis de quase três milhões de habitantes,ruas engarrafadas a qualquer momento,gente espremida em ônibus lotados,carros demais nas ruas que foram feitas para as carruagens seiscentistas e sendo obsequiada com o pior prefeito de todos os tempos,dá-nos a impressão de que o Senhor do Bonfim tirou férias ou cansou de nós e decidiu voltar a residir em Setúbal,mesmo tendo que engolir o Cavaco,goela a dentro.
Se não fosse a brisa marinha e as  belas paisagens acho que os baianos surtariam.
Cada vez mais precisamos de três palavrinhas  começadas com a letra P – paciência,prudência e persistência – para resistirmos  ao desejo de chutar o pau da barraca e emigrar para o Interior,com casinhas simples e cadeiras nas calçadas, além dos quadros simplórios   :-”Esta casa é um lar” e   vizinhas sentadas na  porta,à tardinha ,trocando  receitas e falando  da vida alheia( que,pode até ser pecado,mas ,é divertido) dando a cor local e um viés de serenidade tão necessário para uma vida feliz.
Sei que são palavrinhas antiquadas, ainda usam chapéu e vêm resistindo a reformas ortográficas sem nexo,feitas apenas para ocupar o tempo dos gramáticos.
Paciência necessária no  trânsito,no lidar com os nossos dessemelhantes,com o governo,com  os familiares, todos estressados,com as horas perdidas nas filas.
Paciência com juros estratosféricos,mulheres de callcenter, contas que não fecham,escolas públicas destruídas ou sem vagas e o eterno blábláblá dos políticos.
Uma famosa cantora baiana queixou-se da preguiça dos seus conterrâneos porque um deles demorou de consertar seu ar condicionado; por se sentir desprestigiada ,afinal ela pensa que é uma “personalidade” jogou a pecha de preguiçoso  em todos os baianos,Precisamos ter paciência,também,com essa falsa baianas apaulistada, que colocou no mesmo saco um bando de grãos de farinha diferentes.Toda unanimidade é burra,dizia o Mestre Nelson Rodrigues e,quem sabe ,a própria moça não teve preguiça de procurar melhor um técnico ou uma empresa que pudessem melhor lhe servir.Acontece!
Mas,voltemos às palavrinhas.
Prudência é uma palavra tão boa como qualquer outra e até tem status de substantivo próprio , pois ,virou nome de gente.
Ela nos ajuda a não cair em frias,não extrapolar nos gastos  e nem confiar em qualquer peralvilho que se nos apresente.
Há muito ,prudentemente,aprendi a desconfiar de elogios reiterados e  repetitivos.
Prefiro as críticas honestas  porque ,essas eu estou pronta para receber e responder.Mulher de desconfiômetro ativo,sei que não estou com essa bola toda que as pessoas querem me fazer acreditar.
Lembro daquele filósofo grego de tempos idos que,quando era aplaudido pela multidão,se perguntava:
-Que besteira será que eu falei?!
Bem, nos resta falar  da  persistência. Gosto muito desta palavra, apesar de ser difícil de pronunciar,especialmente por jornalistas de TV que estão sempre se enrolando com ela.
É a persistência que nos leva ao  sucesso,seja para conseguir uma audiência com um político ou publicar um livro.
A persistência põe-me todo dia diante de uma tela em branco de um  computador,onde escrevo essas mal traçadas pensando na posteridade ,mesmo que ninguém leia ou comente.
Persisto, também,no meu propósito de lutar para que a Bahia seja conhecida por sua Literatura,que existe,apesar de não ser divulgada,e,não apenas pelos pagodes e axés da vida.Não,ainda não me cansei de dar murro em faca de ponta.
Afinal ,os acadêmicos,são (ou deveriam ser) os apóstolos modernos e exercer seu apostolado  difundindo a cultura  por aí,seja aos corintianos ou aos flamenguistas,não importa.
São Paulo não difundiu o Evangelho aos coríntios? E,se o   fez é porque naquele tempo não havia corintianos,exceto o presidente Lula que é atemporal.
Obrigada pela paciência ao ler essa crônica e persista  nessas leituras com carinho e prudência.
                                          ‘té mais!