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segunda-feira, 20 de setembro de 2010
A CALÚNIA
A idade nos leva muita coisa que gostaríamos de preservar,como a força juvenil,os arroubos amorosos,o entusiasmo e as esperanças,que vão ficando para trás,como dizia o poeta Antonio Tomás,enquanto os desenganos vão conosco á frente.Mas,uma coisa,não perdi,a capacidade de me indignar.Quando vejo pessoas e famílias serem jogadas aos lobos,por uma mídia ávida de lucros,reputações destruídas sem provas concretas,pessoas como eu e você,que dormem como pessoas comuns e acordam como monstros,injustiçadas,atiradas á lama,sem poder falar ou protestar,contar sua versão da história,porque não são donas de jornais ou de TVs,não tem parentes importantes,isto,sim,me incomoda e devia incomodar a todos nós.Porque,como diz o poeta Buarque”a dor da gente não sai nos jornais”.Então me vem á memória um texto que li,faz muitos anos e nunca esqueci.Numa aldeia árabe,nos tempos de Harun Al Rachid,o maior dos califas,uma mulher idosa conhecida por sua língua pérfida,levantou um falso contra um morador e sua mulher,coisa grave e os acusados foram levados á presença do cádi.Interrogados,sua inocência foi provada.O juiz,chamou a velha harpia e mandou que ela escrevesse num papel o nome completo das pessoas que ela acusou e que se revelaram inocentes.Depois,picotou o papel em mil pedaços que o simun,o vento do deserto,espalhou pelos quatro cantos do oásis.O juiz ordenou que a velha catasse todos os pedacinhos e recompuzesse o nome corrompido por ela.Claro que ela não conseguiu;o vento os levou por todo o deserto,as aves de rapina,engoliram alguns,outros caíram nos monturos.O juiz,então,condenou a velha a cem chibatadas,para que ela aprendesse,que,uma vez lançada uma calunia contra alguém,seu nome jamais sera recomposto e a mancha da dúvida pairaria sempre sobre suas cabeças,como o manto da desonra.Quando é,que aqui,nestas nossa terra ocidental civilizada,vamos exigir uma retratação desta nossa imprensa marrom,fantasiada de imprensa séria,pelo menos uma compensação financeira,qualquer coisa mais substancial que uma mera notinha de rodapé..
quarta-feira, 16 de junho de 2010
A COPA DE /58: RECORDAÇÕES
Eu era uma adolescente de 16 anos em 1958. Confesso ser um pouco difícil convencer meu neto de cinco anos,que,eu,um dia já tive 16 anos.O Brasil vinha saindo de um tremendo desastre esportivo,a perda da Taça para o Uruguai, em pleno Maracanã,quando o nosso complexo de vira-lata,nunca esteve tão presente.Nós não éramos nada diante do mundo.
Mas, veio a Copa de /58 e ,graças a Paulo Machado de Carvalho a esperança renascia.Íamos enfrentar a Suécia,para quem éramos desconhecidos; lá , perguntava-se nas ruas,: -Que país é esse? Onde fica,na Àfrica? E nós baixávamos as nossas cabeças e nos recolhíamos á nossa insiginificancia .
Até o glorioso dia 29/06/58,aliás,dia de S.Pedro. Nesse dia,o mundo prestou atenção no Brasil e o Brasil conheceu a glória.
Eu, uma adolescente apaixonada pelo meu país,como sempre fui,meus tios,meus primos,amigos,num tempo em que o bairro inteiro se conhecia,o tempo das cadeiras nas calçadas,dos saraus e do cinema Roma,aos domingos,nos preparavamos para festejar a Copa.
Minha família morava num prédio de três andares,então fizemos balões do tamanho da fachada,bem enfeitados e agaloados,preparamos os fogos,a canjica,os licores,o amendoim,a música,pois,em cada casa daquele bairro haveria festa.Todos iriam á casa de todos,num entra e sai divertido.
Nosso vizinho,que tinha uma mansão,com um grande salão de dança ao ar livre,preparou o arrasta-pé.
Nós,vestidos de verde-amarelo,as bandeiras nacionais imensas estendidas nas fachadas,bandeirolas coloridas,circundando todo prédio,esperávamos a hora de soltar o grito triunfal:A COPA É NOSSA! E reverenciar os novos deuses! Pelé, Garrincha, Mazolla,Djalma Santos, Di Sordi, Gilmar.Ah,as pernas de Gilmar!Que garota esqueceria!E Zagallo,Mário Jorge Lobo Zagallo;sim ó mesmo do “vocês vão ter que me engolir!”
E que engolimos com prazer até hoje.
Eles criaram o futebol arte. Sob o comando de Feola, nos devolveram a auto-estima,esses gigantes levantaram o Brasil nos seus ombros e gritaram:
-Estamos aqui;e viemos para ficar.Eram brasileiros.Vibravam,lutavam,brigavam por seu país,quase todos pobres,hoje. Bem diferente dos “nikeanos” de agora,apátridas,felizes com suas algemas de cristal,não mais guerreiros,não mais aguerridos,vão onde os patrões lhes mandam.
Por estes eu não soltaria nem um traque.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
COISAS DA VIDA...
Seu Jairo Santana era um funcionário exemplar;durante os trinta anos que trabalhou na Prefeitura de Salvador,nunca faltou um dia,nem saiu cedo,nem chegou atrasado.Parecia um relógio.Casado com Dona Zuleica,há trinta e cinco anos,tinha dois filhos,Deraldo,hoje,taxista e Marlise,professora.
A mulher cuidava da casa,sempre ás voltas com panelas e crochê;mas,na sua opacidade aparente,era quem mantinha firme os alicerces dessa família,para que,seu Jairo pudesse cuidar,tranqüilo dos problemas do seu trabalho.
Viviam felizes na sua casinha da Ribeira,com um pequeno jardim ,na frente e mamoeiros no quintal;quando entrou na menopausa,Dona Zuleica achou que não precisava mais cumprir as obrigações de cama,penosas para ela e,eles passaram a viver como irmãos.
Seu Jairo já entrado nos cinqüenta não pareceu se importar muito com a nova condição;viviam a mesma vidinha de sempre,iam á missa aos domingos,passeavam á tarde no Porto dos Mastros,para apreciar o pôr-do-sol e tomar um sorvete,sempre de braços dados,o mais perto de intimidade que chegavam.
Mas,como tudo na vida tem um fim,numa segunda feira ensolarada,seu Jairo,deixou pender a cabeça sobre sua mesa de escritório e,suavemente,entregou a alma ao Criador;tinha sido escalado,assim,de repente,sem doença aparente,pois a Magra,não costuma dar aviso.Foi um salseiro,um constrangimento só,um movimento de colegas e até de passantes que tinham negócios a tratar na prefeitura.Todos pareciam muito tristes.Seu Jairo era muito querido.
O velório, no dia seguinte,no Campo Santo,foi muito concorrido,a Municipalidade pagou as exéquias,a mulher compareceu toda de preto,como devia ser,acompanhada pelos filhos,todos muito chorosos.No meio da multidão,ninguém notou uma senhora,ainda jovem,que chorava muito,acompanhada por duas crianças,uma menina,de uns sete anos e um garoto de onze.Estavam meio recantiados,quase escondidos,mas,na hora do enterro,vieram perto da cova e jogaram umas rosas sobre o caixão.Choravam baixinho,controlados,mas,foram notados por Deraldo,que ficou intrigado:-Quem seria aquela mulher?Nunca a tinha visto.
-Aí tem dente de coelho,pensou.
A mãe nada percebeu, a cabeça pendida nos ombros,acariciava os cabelos da filha,abraçadas ambas,solidarias na dor.
A estranha e as crianças foram saindo devagar e Deraldo as seguiu até o ponto do ônibus; sentaram num banco e ele puxou conversa.
-Vieram também enterrar alguém? O garoto respondeu, um leve desafio na voz:
-Meu pai.Trabalhava na Prefeitura,morreu de repente.
Atônito, o rapaz voltou ao cemitério.
Estava claro que seu pai tinha outra família. Mas, como?Quando?Não faltava ao trabalho,nunca saía á noite,não se atrasava,sempre em casa nos feriados e fins de semana.
Só podia ser na hora do cafezinho!

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